
Ficamos um bom tempo
sem escrever nada neste blog. O motivo do sumiço é que nossos planos foram
quase por água abaixo. Mais uma vez, père ficou desempregado e quando arranjou
um emprego um bom tempo depois, estava ganhando bem menos e simplesmente não tínhamos
dinheiro para tornar nosso sonho de imigração real. Tudo que envolve o processo
de obtenção de visto de residente permanente se tornou utópico de uma hora pra
outra. Um verdadeiro banho de água fria. Um banho, não. Um caldo.
Para mère, ter
largado as aulas de francês foi o pior de tudo. Passou semanas sem poder
acreditar que aquilo estava acontecendo. Mês passado tivemos que pedir ajuda
para a família pra poder pagar as contas. Isso não é só humilhante. É injusto
também. Se tem uma coisa que incomoda muito mère e père é o fato de sempre
estar nessa instabilidade financeira que os força a pedir ajuda vez ou outra. Mas
enquanto père procurava emprego, curiosamente apareceram muitas vagas em seu
e-mail para o Québec. Ao mesmo tempo, um amigo nosso que já está lá entrou em
contato com père perguntando se ele teria o interesse de ser indicado pra
trabalhar na empresa onde esse nosso amigo está. Mère assistia a filmes que
lembram o Québec e chorava. Foi aí que entendemos o que a vida estava querendo
nos dizer.
Existe sim uma
possibilidade! E ela se chama Work Permit. Claro que queremos (e vamos!) nos tornar
residentes permanentes. Mas está difícil juntar um dinheiro grande pra
sobrevivermos até pére arranjar um emprego lá. Por isso temos (e podemos)
chegar lá já com emprego e o visto de residente permanente será o segundo
passo. Quanto mais tempo ficamos aqui nessa instabilidade financeira, pior é
pra nós. Onde moramos é tudo muito caro. Fica difícil se planejar e juntar
muito dinheiro. Mère não trabalha porque acreditamos que os primeiros anos de
vida de uma criança devem ser vividos ao lado da mãe. Não é uma decisão fácil
pra quem passa por grandes apertos, mas nós estamos convictos dessa filosofia
de vida. Após os 3 anos, acreditamos que a criança pode ir para a escolinha sem
perder tanto, mas antes disso, fazemos altos sacrifícios pra que les enfants
tenham seu porto seguro intacto.
Portanto, no nosso
caso, o negócio é ter o dinheiro pra aplicar o visto, pra comprar as passagens,
e ir embora (falando grosseiramente, claro). Então quando entendemos o recado,
as portas começaram a se abrir espantosamente. Primeiro voltamos a fazer as
aulas de francês. Mère ficou feliz de novo. Foi uma idéia ousada se você pensar
que père estava desempregado, mas logo em seguida ele arranjou um bom emprego
como não conseguia há meses! Cada aula de francês que mère faz, alguém precisa
ficar com les enfants. É uma loucura, ver quem da família estaria disponível,
levar fille e garçon até a pessoa, fazer aula e depois buscar novamente. Père
sai correndo do trabalho na hora do almoço, pega metrô até o professor, faz a
aula e volta correndo pra empresa. Logo depois, père ficou sabendo que iria
acontecer a Missão de Recrutamento de TI no Brasil e que ele tinha 3 dias pra
mandar o CV! Foi uma correria pra arrumar o CV, criar uma carta de apresentação
e depois passar pro francês com a ajuda do nosso professor.
Père (assim como
mère) ainda não consegue conversar em francês. Acreditamos que ambos no momento
ainda estão no nível básico. Se père for mesmo selecionado pra fazer a
entrevista, vai ser um grande desafio. No começo pensamos que deveríamos deixar
para a próxima missão no ano que vem. Mas nosso amigo que já está no Québec nos
encorajou a tentar dizendo que quando ele foi fazer a entrevista também mal
conseguia se comunicar em francês. Mas conseguiu a vaga com a promessa de que
até terminar o processo do visto, já estaria no nível de intermediário para
avançado. Então pensamos: o que temos a perder? Se não der dessa vez, tentamos
ano que vem. O que não dá é pra deixar de tentar. Pra tentar bonito, mère
deixou de fazer aula durante esse mês para que père treinasse para a possível entrevista
com o professor durante todo o tempo disponível.
Imaginem como está a
cabeça de père essas semanas. De duas uma: ou é pra gente ir rápido pra lá ou é
pra gente treinar agora pra fazer bem feito da próxima vez. Pensando
racionalmente, seria melhor irmos daqui 1 ano por conta do dinheiro. Mas se for
pra irmos agora, vamos pedir um empréstimo familiar e pagar tudo de volta,
centavo por centavo. Matar leões faz parte da vida do brasileiro médio e não
vai ser diferente no Québec. A nossa esperança é de que lá não nadaremos pra
morrer na praia.